quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Bege. Azul, verde e rosa.
Primeiro dia do ano. Você me abraça e eu recosto, sem medo, a cabeça no seu peito. Ouço o ritmo do seu coração olhando o reflexo da Lua no mar. Como se ela fosse bonita demais e eu não suportasse olhá-la diretamente, sabe? Assim como você, que também me fez perder o olhar, o jeito e a voz. Você me carrega no colo pra ser confortável para os últimos e primeiros beijos. Seguro seu chapéu e deixo a gente ser. Você me levanta e pouco me importo com o vestido. A presilha do cabelo sai do lugar, pra gente poder ficar no nosso. Você me dá a mão e como bom entendedor de meias palavras, percebe que não gosto do braço apoiado no meu ombro. E você ri do tanto que tropeço, eu digo que é só porque tem alguém pra me segurar. Olho pro mar e agradeço muito. Peço o sossego e a paz que encontrei no seu abraço pro resto dos dias do ano, mesmo que eu encontre isso em outros abraços. Ou palavras, toques, matéria, música ou energia. Sorrio pra amiga e a gente se permite ser feliz juntas. Como nascemos pra ser. Cuido do seu amigo e quero mudar minha palavra do ano para "comunicação". Quero me comunicar mais, de todas as formas possíveis. Hoje nasci aprendendo e acabo ficando. Muda. Até a lua cobrir o mar. A gente se vira com o resto, o chapéu, o sapato, a blusa, a presilha, o vestido, a amiga, o irmão, o mar, as lojas, o show.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Avenida Paulista
Horário de pico. Aceito tomar o café com... como é mesmo o nome dele? Tá, deixa pra lá. Starbucks. Eu nem gosto muito assim de café, nem de Starbucks, mas tudo bem. Fora que ele me interrompeu na biblioteca, logo quando estava no melhor momento: descanso nos estudos pra uma música. Tudo bem, tudo bem. É São Paulo. Um gole, três goles. Barulhinho do canudo denunciando que não tem mais nada. Tenho que ir, me despeço com desculpas que já está um pouco tarde, sendo que vai ser o dia que chegarei mais cedo na casa do meu tio. Mentiras sinceras me interessam... Bonequinho verde do pedestre. Passo na livraria e na farmácia. Não compro nenhum livro, minha lista do que tenho pra ler em casa já deve estar na casa dos 30. Compro cera nutritiva para as unhas - que nem tenho mais. Finalmente estou onde estou, sozinha, quase no final das minhas semanas mais estranhas do ano. Eu dei tudo que podia pra essa cidade. São Paulo me sugou, de alma. Fora meus pés cansados, minha cabeça cheia, meu corpo empoeirado. Ando rápido. Observo o skatista que quase me atropela com o som que dá pra escutar através dos fones, a gorda esperando (e comendo, claro) no ponto de ônibus, um casal se beijando melosamente nesse tráfego de humanos (o que eu acho bonito), o homem de terno e gravata, os prédios arranhando o céu, o casal desengonçado indie de mãos dadas, a moça do cabelo rosa, amontoado de gente quase invisível e eu... pequena, vestido azul, só olhando. Olhando como tudo funciona rápido aqui e o quanto gosto. Pensando no quanto estou confusa, com saudade, apaixonada e com medo. Gosto como todo mundo pode ser o que quer aqui. Há sempre espaço. Assustadoramente encantadora. O que assusta, me atrai. "Desculpa", esbarro num homem bonito. Sem querer, só pra deixar claro. Mal percebo, chego. O porteiro que acorda 4h da manhã abre o portão pr'eu entrar no apartamento. Eu sempre acordo mal humorada até ver o porteiro e lembrar que ele acorda 4h da manhã pra abrir o portão pra mim. Sorrio e ele acena... como bons protagonistas de uma cidade que só tem marionetes. E sonhos, e ilusões e imensidões e companhias perdidas. Sorte que eu encontrei alguém com quem almoçar. E tomar café.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Segundos de possibilidades
Ele tinha tudo que eu abomino e tudo que eu amo. Não soube em que focar. Eu só sei que ele salvou a noite com o primeiro diálogo, aquele em que eu não lembrei o seu nome logo quando fomos apresentados e caso errasse na terceira tentativa, ele me pedia o que quisesse. Mas eu acertei e eu que teria que pedir. O que pedir de alguém que acabei de conhecer? Perguntei, quase dizendo um gole de cerveja - que detesto - só pra não ser sincera demais. E aí ele me beijou depois do "isso". Alto, magro, rockeiro e poeta - dependendo do ponto de vista. Fora o nome lindo, que eu nem disse que já pensei em colocar no meu filho pra não ficar parecendo mentira de comédia romântica. Na verdade, eu só escrevi mesmo para não esquecer. Porque por alguns minutos ele foi o melhor possível amor de minha vida. Às vezes a gente tem que guardar essas coisas.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Desabafo
Uma vida inteira de gente te dizendo o que fazer. Eu só cansei de alguém querendo me consertar. Quero alguém pra gostar de mim. Assim.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Dia de chuva
Oi,
há tempos não te escrevo nada. Aliás, não me lembro de ter sido tão direta assim alguma vez. Chove, agora. Eu permaneço imóvel, na janela, só observando o ritmo e sentindo cheiro de terra molhada. Lembra que estava chovendo quando a gente começou escrever uma música que nunca terminamos? Você tocava e eu cantava. Aí depois você fez sozinho, o que me deixou um pouco irritada, mas extremamente feliz. Lembra que você jogou um balde de água na minha cabeça e me rodou firme até eu ficar absurdamente tonta? Arriscamos molhar o cabelo, a pele, a boca. Sinto saudade de você. Desculpa, não você, você. Mas um você outro, mais perto e acessível, a quem essa carta poderia ser direcionada sem tantas entrelinhas e meios. Sinto falta mesmo é de gente como a gente, sabe? Que se entrega, se declara, se molha. Eu sei que estamos bens. Você aí, eu aqui e um pontinho de saudade saudável. Eu só queria dizer isso pra alguém que vai entender. Você sabe que eu sempre invento oportunidade, intenções e declarações que, eu juro, querem dono. Eu não pensei duas vezes em direcionar histórias pra você porque você também estava disposto. As pessoas precisam estarem dispostas. Eu só ando cansada desse tanto de talento e vida perdida. Desse medo de doer e doar que as pessoas têm. Desse medo de tomar chuva, borrar a maquiagem e a roupa. Gente com medo de abrir a janela, iniciar uma conversa e ser ignorado. Saudade de gente que se arrisca, como nós. De gente que quebra as regras, mas não as leis. Saudade dessa sua coragem, em corpos alheios, de pegar carona pra viajar pra ver alguém. Sinto falta dos sussurros, do segredo, da vontade de desbravar o mundo em segundos. Saudade do nosso amor urgente de primavera, com data de validade. Quero gente assim, que não disfarça saudade ou paixão. Gente que enfrenta gostos musicais diferentes e sotaques estranhos. Gente que só usa o "não" no vocabulário pra preservar o juízo. Observo a chuva, tão despretensiosa, que tenho vontade dessa serenidade depois de muita atitude. "A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.", escreveu João Guimarães Rosa. Ele é um dos meus escritores preferidos, já te disse? Tô com saudade mesmo é da parte de esquentar, entende? Ninguém quer abandonar o conformismo, desgrudar da rotina. Queria que algumas pessoas aprendessem com você. Porque é tanta vida, filme, livro, música (que não existem, ainda) querendo ser vividos que me dá uma agonia de desperdício. E não falo só do meu par romântico, digo também de se entregar aos compromissos pessoais e egoístas. Desse amor próprio que ninguém quer admitir, cultivar. Saudade de aprender a me amar, um pouquinho mais, cada dia. Saudade de gente que se permite. Espero que você esteja melhor do que sempre. Nesse quesito, de se entregar aos compromissos. Aprendi com você. Ainda temos que terminar isso, né?
Se cuida,
do seu amor exagerado,
Fernanda.
P.S.: É, às vezes eu me lembro quando chove...
Se cuida,
do seu amor exagerado,
Fernanda.
P.S.: É, às vezes eu me lembro quando chove...
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Aqui de passagem
E a vida vem, de mansinho, para nos provar que ela quem manda. Mesmo com a gente morrendo de tanta coisa e de tantos desejos. Meros espectadores. Engarrafamento, voo errado, semáforo demorado e nossa felicidade se esconde para uma outra hora. E lugar. Desencontros e esperanças esparramadas no chão. Choro lendo o cartão da amiga - que veio com cheiro e amor, menos presença - e lembro o quanto quero me encontrar. O quanto quero ser o que penso. O quanto queria que nosso maldito voo tivesse sido o mesmo só pra ter a mínima chance dele perceber que nos merecemos, que eu me importo, que a gente combina, mesmo que de longe. Combinar de longe já é grande coisa. Ou então só pra ver ele sorrir meio tímido e me chamar de algum nome que detesto e nem imaginar que só por isso vou explodir uma semana. Ou até mesmo pra saber que a gente pode se ver com mais frequência, se tudo der certo. Minha mãe liga. Ela não sabe que não posso falar poque ninguém pode me interromper nessas horas e reclama, enche o saco e me deixa estressada. Não entendo isso de serem sempre os filhos os compreensíveis. Compro um chocolate, mudo a música porque não quero lembrar o quanto gosto de Eduardo e Mônica, e escuto The Doors. Lembro do menino bonito do fim de semana com a blusa da capa do álbum. Vontade de ficar. Não quero mais ir. Aprendo, muda, que a hora de falar é quando você tem vontade, mesmo. Ninguém adia urgências faláveis. Vê só, nem sei mais o que dizer do jeito de Lady Gaga... Observo o homem de cabelo branco com chapéu na mão e tenho vontade de escutar sobre a vida dele. Mas todo mundo aqui ou está muito apressado ou tem muito tempo. Ele parece apressado. A bateria acaba e sobra espaço no coração e paciência na mente. Sei esperar. Abro o livro e fico enjoada na primeira frase. Estou voltando pra casa cheia. Cheia da barriga e de coisas estranhas, tipo borboletas no estômago sem explicação romântica. Trago a esperança de novas amizades, convites para um dia e o desespero de um mundo gigante. Compartilho histórias com quem não me obriga a fazê-lo. Começo a achar as coisas alcançáveis. Rezo pro futuro estar chegando. Durmo nas instruções do cinto de segurança. A história de amor do piloto com a aeromoça que me deem licença, mas agora eu vou viver.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Sobre signos
No meu bloquinho de formigas...
Fernanda:
Um desabafo: ODEIO CÂNCER!!! Que drama, mimimi.
Elena:
Um apelo: Mais Capricórnio para Ferna! Hahah ♥
Jéssica:
Uma figurinha:
Fernanda:
Um desabafo: ODEIO CÂNCER!!! Que drama, mimimi.
Elena:
Um apelo: Mais Capricórnio para Ferna! Hahah ♥
Jéssica:
Uma figurinha:
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Silêncio
- Você tem andado tão calada... o que aconteceu?
(Tenho estado assim para não cuspir em cima desse moralismo barato imposto. Para não tropeçar no meio de suas palavras que pouco me importam. Tenho andado muda para não interromper dramas tão egoístas e importantes. Para não chorar contando que para alcançar alguma coisa tive que desistir de um dos meus maiores sonhos. Para não devorá-lo de um jeito tão medíocre. Para não ser escrota, puta, idiota. Calo-me para não expor tanta discordância. Para não gritar no meio do acorde maior da música preferida, nem escarrar verdades impróprias e arrogantes. Deixo os outros serem. Calada para não sair fogo quando eu falar. Para não morder, mastigar, triturar com os dentes. Para não rasgar o peito ao tomar o fôlego. Para não me desconcentrar no sétimo passo da dança, aquele em que ele me roda. Para não cair porque exagerei nos detalhes do olhar. Para não ser mal criada. E também porque as palavras não acompanham os pensamentos, assim eles são mais livres para existirem. Não digo nada para ir p'ro céu. Para evitar o sono no meio da segunda frase de horror. Nesse caso, palavras não mudam. Evito a saliva para manter o desgaste longe. A língua tem funções melhores. Suja, errada, errante. Sem sons é impossível arranhar os ouvidos. É por isso. O silêncio é mais confortável e sensato, agora. Assim eu escuto melhor.)
- Sei lá, acho que só estou cansada.
O que não deixa de ser verdade.
(...)
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Boa sorte
Ignorou a dor até o último minuto. Até pra doer era racional. Pra esquecer, se ocupou com o canto do passarinho, o problema dos outros, escutou a conversa romântica do casal, se desesperou com o choro do bebê, perdeu de vista o caminho da borboleta, se distraiu com um novo vício no celular. Disfarçou a lágrima com a mensagem que recebeu e o "boa sorte" de quem podia ser amor. Não foi por chatice, teimosia, e essa coisa de não gostar de quem gosta da gente. Esqueceu propositalmente o remédio, tirou o delineador no banho, reclamou com o olhar do corpo nu e quando, finalmente, deitou... doeu. Doeu completamente. Depois da euforia, permitia-se doer. Sua sorte era que não abria mão do sono. Mesmo que ele só chegasse depois que Marcelo Camelo convencesse que "tudo passa". Ia passar. Faltava pouco.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
O vento
Nós, tão aliados e confiantes do vento, fomos traídos pelo próprio. Esse mesmo que carrega o ar, o mar, o amor. É sempre assim quando se quer brincar com forças maiores e invisíveis, já percebeu? Sempre nos passam a rasteira. O que me mata é essa impossibilidade de reação. Esta incerteza que não me deixa lutar contra isso. Este desespero de urgência que se aproxima e me deixa cada dia mais sem reação e calada. Tudo grita, tudo dói, tudo esparrama, se esconde, fica, foge. Dentro.
Tempestade, vendaval... tem piedade de quem...
Eu acredito em poucas coisas na vida. Uma dessas poucas coisas é a natureza. Deve ser isso que chamam de fé. Por muito tempo, eu achei que estava certa, convicta. Por um bom tempo, o vento no rosto só vinha para aliviar a tensão do calor. Agora, vejo-me arrastada por um caos embaçado. Nem eu sei o estrago que faz... a vida é curta pra ver. Eu não sei pra onde ir, nem com quem. O máximo que faço é preparar as janelas pra chuva, alongar os cílios. Acho tão pouco.
Juras se desfazendo e eu continuei, até aqui, segurando um certo laço com toda minha pouca força que resta. Lembra que o plano era ficarmos bem? Hora da despedida. Meu voo está começando, meu amor... e eu estou indo pra longe. De verdade, desta vez. Vou no vento e atrás dele. Pela primeira vez, minha casa não é alguém.
Tempestade, vendaval... tem piedade de quem...
Eu acredito em poucas coisas na vida. Uma dessas poucas coisas é a natureza. Deve ser isso que chamam de fé. Por muito tempo, eu achei que estava certa, convicta. Por um bom tempo, o vento no rosto só vinha para aliviar a tensão do calor. Agora, vejo-me arrastada por um caos embaçado. Nem eu sei o estrago que faz... a vida é curta pra ver. Eu não sei pra onde ir, nem com quem. O máximo que faço é preparar as janelas pra chuva, alongar os cílios. Acho tão pouco.
Juras se desfazendo e eu continuei, até aqui, segurando um certo laço com toda minha pouca força que resta. Lembra que o plano era ficarmos bem? Hora da despedida. Meu voo está começando, meu amor... e eu estou indo pra longe. De verdade, desta vez. Vou no vento e atrás dele. Pela primeira vez, minha casa não é alguém.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Dura
Só não queria que a vida me endurecesse tanto. Tão rápido.
E ardesse tanto. E não fosse tanto. E doesse tanto.
É que hoje eu vi um passarinho.
Quis tanto escrever sobre o passarinho...
O que dizer de um pássaro?
Passou.
E ardesse tanto. E não fosse tanto. E doesse tanto.
É que hoje eu vi um passarinho.
Quis tanto escrever sobre o passarinho...
O que dizer de um pássaro?
Passou.
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